Sobre o golpe de mestre de Aécio e o golpe de misericórdia na oposição.

2009 December 17

Não é que Aécio consegue, mais uma vez, surpreender todos que acompanham a luta pelo pódio presidencial em 2010? Já havia surpreendido ao, de repente, sair dos níveis ínfimos que apresentava nas pesquisas, onde não passava de 4 ou 5%, para o número bastante mais expressivo (especialmente a tal distância das eleições) de 15%. Surpreendeu novamente ao conseguir que o deputado federal Ciro Gomes, pseudocandidato presidencial bastante bem posicionado nas pesquisas de intenção, gritasse aos quatro cantos do mundo que, caso fosse Aécio o candidato do PSDB, ele, Ciro, não mais se candidataria. Surpreende agora, numa espécie de coup de grace, ao anunciar, semanas antes do prazo que ele próprio havia estipulado, que abandona de fato a corrida pela candidatura presidencial.

À primeira vista, a atitude do governador mineiro pode parecer resignada ou mesmo covarde. Sabendo que seu concorrente pela candidatura tucana à Presidência da República, o governador de São Paulo José Serra, era mais forte do que ele, teria preferido o mineiro resumir-se à sua insignificância. Mas uma análise ligeiramente mais aprofundada faz ver que, muitíssimo pelo contrário, a atitude de Aécio foi bastante inteligente, um golpe de mestre político.

Desde o começo, a vontade de Aécio era escolher com antecedência o candidato tucano. Avaliava que somente com uma campanha prolongada, como a engendrada pelo presidente Lula em torno da ministra-candidata Dilma Roussef, o PSDB teria reais chances de vencer a eleição contra o presidente mais popular da história. José Serra, entretanto, como já avaliado neste blog, tremia de medo dessa decisão. Acreditava que quanto mais cedo fosse escolhido o candidato, mais ataques sofreria ele, além de, no íntimo, temer entregar o governo de São Paulo, onde sua reeleição seria garantida, em troca de uma possível derrota à Presidência. Preferia, em suma, esperar até o soar do gongo. Esperava que, caso a candidata lulista estourasse nas pesquisas, pudesse escolher pelo tranqüilo trono paulista, jogando o amigo Aécio Neves para a batalha já perdida da Presidência da República.

Aécio, que não é nada bobo, percebeu isso desde o começo. Sentiu o medo do colega paulista, sabia que a intenção de Serra era usá-lo como segunda opção numa luta sem possibilidade de vitória. Sabia que seu papel, nos planos serristas, era ser o boi de piranha. Decidiu, sabendo tudo isso, forçar o partido a uma escolha ainda este ano. Escolheu como data limite o dia 11 de janeiro, quando, caso não houvesse sido escolhido o candidato, sairia para senador por Minas Gerais e trabalharia na campanha de seu vice-governador. Então, com a mansa esperteza dos mineiros, esperou. Sabia que, com essa ameaça, todos os setores do partido se movimentariam ferozmente nos bastidores, alguns em sua defesa, outros em sua caça.

Aos poucos, foi sentindo os movimentos partidários para isolá-lo. Foi vendo os apoios que contabilizava como seus passando para o adversário. Então, teve a confirmação que desejava: que o partido não tinha qualquer intenção de tê-lo como candidato à Presidência em 2010, que o desejo da cúpula tucana era que fosse vice de José Serra. Assim, numa jogada de mestre, realizou o movimento que já havia previsto há diversas rodadas: jogou o prazo auto-determinado para o alto, a fim de manter o elemento surpresa e anunciou a sua desistência, dando um último golpe em seu adversário. Vejam bem o golpe lançado: agora José Serra não tem mais opção. Terá que, de qualquer forma, em qualquer circunstância, abandonar o governo de São Paulo e duelar com Dilma Rousseff pela Presidência. Sob pau e pedra, cobras e lagartos, Dilma e Lula, ele não tem mais como fugir, ainda que suas chances, próximo à eleição, tornem-se quase nulas. Ainda assim, não terá como desistir, porque não há mais candidato reserva. Na tentativa de acuar seu colega governador, a quem esperava utilizar como segunda opção, José Serra acabou acuado ele próprio, obrigado que está a concorrer.

Apesar disso, da inteligência da decisão de Aécio e do ferimento infligido a Serra, é também através dessa atitude que o destino do PSDB em 2010 foi selado. Com a desistência de Aécio Neves, o governador mais querido e carismático do Brasil, cujo carisma e capacidade política são inigualáveis dentre os outros jogadores da sucessão presidencial, mínguam próximo à extinção as possibilidades da oposição de vencer o jogo. Só com um nome novo, como Aécio, e não ligado a setores retrógrados do partido poderia ser vencida a popularidade de Lula e conquistada novamente a Presidência. Agora a vaca foi para o brejo (ou o tucano para o ninho).

4 Responses Leave One →
  1. 2009 December 17
    César Permalink

    Caro Gabriel,

    Parabéns por sua análise. Clara, sensata e em consonância com a realidade dos bastidores da política.

    Sobre o tema, tenho a ponderar que a desistência de Aécio para concorrer à presidência, de certo modo, é mais benéfico ao PSDB do que a criação de uma chapa “sangue puro” tucana. Isso se explica pela aliança PSDB-DEM de longo prazo.

    Outro ponto interessante é que Aécio, apesar de também ter uma reeleição tranquila em MG, não pode mais se candidatar ao cargo. Certamente, aspira voos mais altos, no Senado Federal, em que terá eleição igualmente tranquila, até pelo fato de se renovarem 2/3 da Casa.

    Sem dúvida, para Aécio é melhor um Senado por 8 anos, do que o ostracismo por, no mínimo, 2.

  2. 2009 December 18
    Laila Permalink

    eu não diria que uma aliança com um partido como o DEM seja benéfica em termos de conquista de popularidade. e você fala como se o josé serra não tivesse mais opção. sem o aécio e com o andar da carruagem, a candidatura dele é o mais óbvio que aconteça, lógico, mas não quer dizer que seja o que irá “de qualquer forma, em qualquer circunstância” acontecer, não é mesmo? não assim, de uma forma tão desamparada como você prevê. o candidato josé serra, em termos nacionais, pra mim é fraco, mas o partido eu tenho que admitir que não.

  3. 2009 December 18
    Laila Permalink

    “eu não diria que uma aliança com um partido como o DEM seja benéfica em termos de conquista de popularidade” se bem que ninguém no brasil se importa muito com a legenda não é mesmo? e daqui pra 2010 a mancha José Arruda no partido já vai ter caído no esquecimento mesmo. que pena.

  4. 2009 December 18
    César Permalink

    Eu considero que o DEM e o PSDB trabalharam muito para manter a aparência de estarem distantes dos escândalos políticos. No meu entender, Arruda foi “uma gota de sangue no lençol branco do DEM”. Tanto que sua situação no partido foi decidida de maneira rápida, em termos de política.

    Não que eu considere estes dois partidos acima de qualquer suspeita, mas considero que eles estão em um patamar um pouco superior aos demais.

    Mas certamente a carta de Arruda será utilizada contra a candidatura serrista, sem dúvida.

  5. 2009 December 18
    Gabriel Dantas Permalink

    Laila,

    mas foi exatamente isso que eu quis dizer: que o Serra não tem mais opção. Ele não pode mais escolher não ser candidato à Presidência. Caso escolhesse isso, a decisão seria considerada uma traição gigantesca ao partido, que ficaria sem opção para a presidência e sairia muitíssimo diminuído das eleições. Agora, Aécio obrigou-o a ser candidato. Não tem mais outra pessoa para ser. Não sendo mais o Serra, o partido sofreria de morte.

    Outra coisa, Laila e César,

    O DEM, na minha visão, é o pior partido do Brasil, ainda pior que o PMDB. A situação dele não foi resolvida politicamente de forma alguma, já que o partido, como bem disse o senador Demóstenes Torres (do DEM), não teve a coragem de expulsar o Arruda, que acabou saindo ele mesmo. Uma situação como essas demandava uma expulsão sumária, não o que houve. Outra coisa, o DEM é muito prejudicial pra uma aliança, mas é necessário. Sem ele, o partido de oposição fica quase sem horário na tevê, que é mais-que-necessário para uma vitória.

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