Muito foi dito e escrito na última semana sobre as eleições chilenas, onde a incrivelmente bem avaliada presidente Michelle Bachelet não conseguiu transferir votos suficientes para eleger seu sucessor, tendo a esquerda assim sofrido a primeira derrota presidencial em vinte anos. Os oposicionistas brasileiros receberam a notícia com alegria, como se fosse um sinal, um presságio de que o mesmo aconteceria no Brasil, onde o presidente Lula tenta eleger a sua sucessora, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Já os governistas, inclusive a candidata Dilma, aproveitaram a deixa para utilizar a derrota do governo vizinho como argumento para asfixiar de vez a candidatura Ciro Gomes à Presidência (no Chile, a base governista foi dividida, o que facilitou a vitória da oposição).
A verdade é que o que ocorreu no Chile não tem qualquer correspondência com o que ocorrerá no Brasil em outubro, nem pelo lado dos oposicionistas, nem pelo lado dos governistas. Analisemos.
Primeiro: a esquerda governa os chilenos há vinte anos. Qualquer governo que completa aniversário de vinte anos, independente da sua cor ou credo, é inevitavelmente inerte e letárgico. O povo chileno, ainda que tradicionalmente esquerdista, notando os sinais da estagnação do partido governante, votou no que representava renovação. A atitude demonstra uma maturidade política altíssima: apesar de aprovar em massa o governo da presidente Bachelet, os chilenos não votaram no candidato da governante simplesmente porque ele representava ainda mais tempo de paralisia política. O Brasil está num momento totalmente diferente. Aqui, além de o atual grupo político estar no governo há apenas oito anos, o povo brasileiro não experimenta a inércia sentida pelos vizinhos. Pelo contrário, o Brasil está em pleno crescimento, tendo sua importância no cenário internacional aumentada exponencialmente. Situações nada parecidas, como se vê. Sem estagnação e, pelo contrário, havendo crescimento econômico, a tendência aqui é que os votos do atual governante sejam transferidos (ainda que em parte) para a sua sucessora, que representa aos olhos do povo a continuidade de um projeto que considera vitorioso e ainda no auge.
Segundo: a base governista chilena estava rachada nas eleições por genuínas divergências ideológicas, que foram consideradas pelos partidos como inconciliáveis. Ou seja, não foi a divisão pensada como estratégia eleitoral, mas ocorreu como conseqüência natural de projetos diversos para o Chile. No Brasil, a possível candidatura de Ciro Gomes não tem cor diferente da de Dilma Rousseff. Ela seria, pelo contrário, estratégia eleitoral cujo fim é evitar que a oposição ganhe no primeiro turno, já que Ciro abocanha alguns votos do candidato oposicionista José Serra. Assim, as divisões das bases governistas no Chile e no Brasil são acontecimentos diferentes com razões diversas, portanto incomparáveis.
Terceiro: no Chile, a aprovadíssima presidente Bachelet não fez qualquer esforço para eleger seu sucessor, que já era bastante conhecido do eleitorado (é ex-presidente do país e seu governo não foi dos melhores). De fato, só apareceu pedindo voto para o candidato três dias antes do segundo turno, quando as eleições já estavam praticamente perdidas para a oposição. Obviamente, o caso não tem como ser relacionado com o que ora acontece com a campanha brasileira, onde o presidente Lula só falta dar comida na boca da sua candidata, esforçando-se incrivelmente para transferir-lhe seus gigantescos números eleitorais.
Quarto e mais importante: nossos vizinhos chilenos são politicamente maduros, dividindo-se em diversas correntes ideológicas que possuem os mais diferentes projetos para a nação. Já o Brasil, infelizmente, passa por um processo gravíssimo de degradação das ideologias, na qual esquerda e direita perdem as suas feições. O atual projeto do governo Lula, que conta com diversos grandes sucessos em várias áreas, acumula fortes características tanto da esquerda quanto da direita. A oposição, por outro lado, se mostra absolutamente perdida, sendo cada vez mais incapaz de demonstrar um plano palpável para o país. Ambos os casos são demonstradores dessa perda gradual de força das ideologias brasileiras, o que é matéria para análise mais profunda em outro artigo. O fato é que o Chile possui muitos projetos à sua disposição, o que não ocorre no Brasil, e o povo decidiu dessa vez por um diferente do vigente, que pode acontecer por diversos motivos, não necessariamente por achar o modelo atual errado.
A realidade é que o Brasil e o Chile, assim como suas eleições presidenciais, não dividem nenhuma semelhança fora o continente onde estão localizados. As circunstâncias nos dois países são absolutamente diferentes, a vida política incompatível e os projetos incomparáveis. Não há como aproveitar-se do exemplo chileno a fim de injetar ânimo e prever o futuro. Não tem mesmo para onde correr, as eleições brasileiras de 2010 ainda guardam inúmeras surpresas.